Revisar um texto é o ato de revê-lo, olhá-lo novamente. Esse novo olhar se dá numa perspectiva de leitura averiguativa, pela qual se vasculha o texto por pontos sensíveis. Apesar de importante, algumas vezes é tida como uma etapa secundária, ou desnecessária – geralmente por novos autores – e tem sido frequente observar casos de negligência na revisão por parte de editoras e veículos de comunicação escrita.

Em linhas gerais, o próprio autor é capaz de revisar sua produção e, por esmero, é de bom tom que o faça. Entretanto, a intensa relação e proximidade com o texto torna-o suspeito para que execute essa tarefa com perícia e isenção. Após a atenção do autor, é interessante que ocorra pelo menos uma etapa de revisão executada por um leitor qualificado, munido de conhecimentos e recursos, com olhos descansados e desvencilhado de apegos junto às peculiaridades do texto.

Realizando um breve olhar sobre a atividade e sobre o ofício da revisão de textos, transcrevemos uma entrevista realizada com Isaque Gomes Correa, revisor e tradutor profissional. Acompanhe.

PUB Editorial: Qual é a origem do ofício Revisão de Textos?

IGC: Há autores no Brasil que tentam traçar a função de revisor de textos à antiguidade. Antes da invenção da imprensa, com a prensa de Gutemberg, havia pessoas que pegavam o livro, o original, papiros, e simplesmente copiavam a mão aquele livro, centenas ou milhares de cópias.

Eu considero que a função de revisor de textos foi inventada junto com a imprensa de Gutemberg. Por volta de 1430, na Alemanha, ele inventou a máquina de tipos móveis. Isso exigia que, depois de uma primeira impressão, segunda impressão, alguém fosse lá e revisasse para ver se estava tudo OK, se nada estava faltando, aí sim como uma função que necessitava uma especialização, alguém dedicado somente para aquilo. Aqui nasce a revisão de textos propriamente dita. Então, com a invenção de Gutemberg, eu diria que vieram junto outras profissões. Uma delas, a revisão de textos.

PUB Editorial: Como é a regulamentação para o exercício profissional da revisão de textos?

IGC: Há países onde a função de revisor é regulamentada, há um conselho de revisores de prova e de texto. No Brasil, a gente não tem isso. Não há cursos de alta qualidade dedicados especificamente para revisores. Eu, pelo menos, desconheço. Têm cursos de pós-graduação, sim, mas não são tão difundidos quanto deveriam ser.

PUB Editorial: Que perspectivas vê para o ofício de revisão de textos?

O ofício da revisão de textos não é regulamentado no Brasil. Isso faz com que não tenhamos dados oficiais sobre os revisores, sobre quanto ganha um revisor… Então isso me limita um pouco de falar em termos de perspectivas, de situação atual. Agora, fazendo uma previsão, vejo com bons olhos o futuro da função dos revisores na medida em que mais e mais as pessoas estão escrevendo, seja em posts, textões na internet e coisas assim, que em algum momento forçam as pessoas a se expressarem. E acho que isso gera novos escritores, novos poetas…

A quantidade de pessoas fazendo pós-graduação aumentou no Brasil. Isso aumenta a necessidade de revisores. Drasticamente aumentou o número de doutorandos e doutores no Brasil, e isso tem consequências no mundo editorial e abre porta para novos revisores. Então, vejo com boas expectativas a necessidade dos revisores.

PUB Editorial: A revisão de textos é indispensável na produção de um livro?

IGC: Infelizmente vejo muitos livros publicados com erros. Vejo algumas publicações que não passaram, certamente, por um revisor ou revisora. Às vezes o próprio autor banca: “Eu sou o responsável pelo texto, vamos publicar de qualquer forma”. Ele quer ver o produto, e não a qualidade do produto. Então nessas vezes eu tenho pena do leitor, que é o produto final de todo esse trabalho sobre o qual estamos conversando, na medida que é ele quem vai comprar o livro, ele quem vai empregar seu tempo na leitura.

Então se tiver erros ali, se houver frases sem sentido completo, frases ambíguas em que as pessoas simplesmente não entendem o que o autor quer dizer, se essa ambiguidade não for proposital, tudo isso pode fazer com que a experiência do leitor possa ser pouco enriquecedora, negativa até, e pode afastá-lo do mundo editorial, da leitura, de comprar outros livros.

Nós revisores buscamos permitir que o leitor tenha uma leitura enriquecedora, boa, clara, objetiva, de forma que ele veja que o tempo empregado na leitura tenha valido a pena.

PUB Editorial: Tecnicamente, qual é a abrangência da atuação de um revisor de textos?

IGC: Há certos aspectos de uma publicação longa – ou de uma coleção – em que nem sequer ocorre ao revisor de que algo aí deveria chamar a atenção dele. Então, para ele, não há erro. Porém, tudo o que pode causar estranhamento no leitor deve ser motivo de atenção do revisor: padronização, correção… Esse movimento de o revisor se deparar com algo e pensar: “Será que isso aqui tá OK? Nas demais ocasiões do livro está assim também? Segue o mesmo padrão? É o mesmo critério?” Isso tem que estar sempre presente. É nesse sentido que digo que, às vezes, passam coisas que eu vejo e percebo que nem passou pela cabeça do revisor que aquilo fosse algo a ser corrigido.

Se a pessoa, o revisor, em algum momento teve uma formação e alguém falou para ele que aquilo ali é importante, ele passa a considerar como importante. Mas quando a pessoa que revisa faz isso intuitivamente, porque gosta de português e por isso se considera uma boa revisora, pra ela tá bom, está bem escrito, não tem erros de gramática, ortografia. Mas o olhar de um revisor de ofício vai além disso, muito além. É principalmente isso [gramática, ortografia]. Mas ultrapassa as regras sintáticas e adequação ortográfica.

PUB Editorial: Quais as distinções entre o serviço de revisão e o serviço de copidesque?

IGC: O copidesque às vezes pega um original que está decididamente mal produzido, mas tem qualidade e potencial. Ele vai dar essa forma final, tornar publicável. Vai reescrever, podendo alterar partes, reordenar.

O serviço do revisor é um pouco mais restrito: ele vai revisar aquilo que deram para ele revisar. Se estiver mal escrito, se tiver que trocar partes, se precisar reescrever a introdução, por exemplo, ele pode pedir para o autor reescrever, ou para o editor fazê-lo. O revisor se resguarda um pouco mais. Mesmo assim, geralmente o copidesque envia o resultado do seu trabalho para um revisor, para que passe por uma visão mais ampla, como se fosse um trabalho complementar.

Copidesque é alguém que escreve bem, e que tem uma cultura ampla a ponto de conseguir jogar com as ideias de um texto e entregar algo adequado ao cliente, mas isso ainda pede a necessidade de um revisor de ofício porque, às vezes, no processo de escrita, produção, readequação, algo pode se passar. Então o revisor permanece como necessário.

PUB Editorial: Quais parâmetros o revisor tem para definir seus preços?

IGC: Existem comunidades no LinkedIn, no Facebook, com participação nacional, onde podemos conversar, trocar orçamentos, mas geralmente o trabalho do revisor é regional. Um prestador de serviços de revisão de textos em São Paulo pode cobrar mais caro do que um prestador de serviços do sul ou do norte do Brasil. São regiões diferentes, com demandas diferentes, com poder aquisitivo diferente, então o preço varia.

Tenho experiência de pessoas de outros estados que fizeram orçamentos comigo e, em alguns casos, elas expressaram algo do tipo: “Está tão baixo o teu preço”. Conversei com outras pessoas que falaram o contrário. Então, acho que não há uma tabela nacional para revisores de texto. Para tradução de textos há o Sindicato Nacional dos Tradutores – SINTRA, que no seu site traz os critérios nacionais nos quais se basear, mas para revisores de textos eu desconheço, ou não há.

PUB Editorial: Quando começou neste ramo, você cobrava pelas revisões?

Inicialmente eu fazia revisões gratuitas para amigos, para colegas, para organizações. Isto eu até sugiro aos novos revisores e a pessoas que querem iniciar no ofício: começar revisando gratuitamente, sem cobrar, fazendo um favor, não um serviço. Isso porque, nesse momento, o candidato a revisor está tendo uma experiência inicial, está se apropriando das técnicas, dos detalhes do ofício, munindo-se de ferramentas que serão úteis depois, quando for atuar com mais seriedade e propriedade. Eu fiz isso, inicialmente, e depois estabeleci um valor. Com o tempo, fui acrescentando trinta centavos, vinte centavos, dez centavos ao preço cobrado, conforme os anos foram se passando.

Para quem me questiona sobre como cobrar, eu digo sempre: pergunte às pessoas da sua região sobre os preços cobrados e, a partir daí, jogue pra mais ou pra menos, de acordo com a sua experiência. Ou seja, sugiro fazer uma “pesquisa de mercado” regional e, então, passe a cobrar.

PUB Editorial: Sugestões de um revisor para novos autores…

IGC: Todo escritor tem o leitor ideal em mente ao escrever. Então, o escritor deve tentar fazer com que o seu texto seja bem lido por aquele que vai empregar seu tempo na leitura. Ou seja, facilite a experiência de leitura escrevendo com palavras usuais e não rebuscadas. Se há algo que se pode escrever com duas palavras, não utilize quatro. Se algo se pode dizer com quatro, não diga com seis. Ganha-se tempo, ganha-se espaço. O leitor ganha tempo, ganha espaço, então todos saem ganhando. Fazer um bom uso do tempo do leitor é algo que o escritor deve ter em mente.

Uma outra dica é tentar fazer com que o conteúdo abordado e a forma dada a ele, na sua escrita, seja claro, intuitivo, direto, e não enigmático, de maneira que o leitor não precise se perguntar: “O que exatamente ele tá querendo dizer? Será que entendi corretamente?” Essa sensação parece que exige mais do leitor e, hoje, na era tecnológica em que vivemos, em que as coisas são tão líquidas, substituídas muito rapidamente, um texto pesado, denso, que exige muito do leitor, pode afastá-lo da leitura.

A sugestão é sempre pensar do ponto de vista da recepção, do leitor, tentar fazer com que ele tenha uma boa experiência ao comprar o seu produto, que é o livro, e ao dedicar seu tempo e atenção à leitura.

Isaque Gomes Correa é formado em Letras pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Atua como tradutor e revisor de textos. Publicou Reflexões gerais a respeito do homem e do mundo e O ser do homem: razões do pessimismo e do otimismo na contemporaneidade, ambos pela EdiPUCRS em 2011 e 2015 respectivamente.

Em 2019 publicou Revisão de textos na era digital: o que e como revisar, pela PUB Editorial.

Você atua ou se sente vocacionado para atuar com revisão de textos? Sugerimos que adquira o livro Revisão de textos na era digital: o que e como revisar. Contato aqui.


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Até a próxima!


4 Comentários

Karen · 16 de julho de 2020 at 02:57

Muito legal poder ler sobre o ofício do revisor. Parabéns Pub Editorial por possibilitar que leitores e autores conheçam um pouco sobre os processos de publicação de um livro.

Dilson Paulo Brito (DP Rapper) · 18 de julho de 2020 at 01:56

Isaque Gomes Correa além de escritor e revisor de textos é artista. Joga além de ciência e técnica, a parte sentimental e objectiva.

Na verdade, é um grande professor.

Em 2009, ele esteve trabalhando em Moçambique, ensinou-me a fazer análise crítica dos textos e apoiou-me na publicação do meu primeiro texto num jornal provincial, ou seja estadual.

Hoje sou um liricista e cantor e uso seus ensinamentos a cada dia.

Espero que um dia valorize-se mais essa profissão essencial e imprescindível.

Parabéns a PUB Editorial pela matéria.

Quanto ao meu amigo peculiar e mentor Isaque desejo muita bênção em sua carreira profissional.

Um forte abraço de Moçambique.

Luis Tapera · 24 de julho de 2020 at 05:42

É tão gratificante ver um trabalho do gênero! Parabéns ao Isaque Gomes.

Estou no início de uma luta pela escrita, alegro-me bastante ver o meu amigo Dilson Paulo que tanto me dá um puchao de orelhas na escrita dos meus textos, como filho de Gomes em matéria de edição dos textos.

Que continuem nos ensinando! Sucessos

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